"MARIANA nos convida para uma interessante jornada, emprestando-nos “seu olhar” para mostrar,
através da narrativa de seus pensamentos, sentimentos e emoções, tudo que existe além das “DIS-HABILIDADES”.
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segunda-feira, 3 de junho de 2013

Desenhando com limão


Quando pequena, que, aliás, continuo sendo, minha mãe nos ensinou a escrever e desenhar com suco de limão, usando um palito de dentes. Depois de tudo seco colocávamos sobre o fogo, no fogão ou numa vela, e magicamente surgia da aparente transparência tudo o que havíamos desenhado. Era fantástica, sempre uma surpresa total, pois ao fazermos os traços tudo era transparente e não tínhamos controle do que estava sendo feito. Apenas o pequeno brilho do caldo do limão e a memória do que a mão havia determinado este exercício de memorizar o espaço, e o que, e onde havíamos rabiscado, ativava minha mente e fazia meus olhos trabalharem em conjunto com a mão e a mente. 

Sentia-me aflita quando não lembrava por onde já havia passado o suco do limão. Às vezes também escorria um pouco, e não adiantava secar com um pano, o limão já estava impregnado no papel; noutras o palito secava quase totalmente, mas não podíamos ter certeza se algo havia sido marcado nas folhas de papel ou não.

O aroma delicioso do limão inundava o ar da cozinha.

Na hora de colocar para queimar ficávamos com o olhar preso ao fogo e ao papel, com os olhos bem próximos, tentando adivinhar o que resultaria. Aos poucos ia se delineando a obra prima, trazendo à luz o enigma! Muitas vezes, na ânsia de ver logo surgirem os traços, acabávamos colocando fogo em todo papel. Era sempre um susto! Na tentativa de apagar o fogo no papel assoprávamos... só piorava!

O cheiro de papel queimado passeava por nossas narinas.

Lembro-me que ficava pensando sobre a possibilidade de escrever cartas secretas, contendo instruções, declarações, adivinhações. Talvez um dia quando precisasse enviar uma mensagem em segredo a alguém, poderia lançar mão deste recurso. Os grandes enigmas são fascinantes, em qualquer idade. Todos ignorariam que o papel continha algo nele impresso, pois a aparência era de estar em branco. E apenas quem conhecesse o truque poderia desvendar os mistérios ali contidos.

Gostávamos meu irmão e eu, de mostrar isso aos nossos amiguinhos, Fernando e Marcio, e até mesmo a MARIANA muitas vezes participou conosco destes momentos. Dedico a ela estas lembranças.

Hoje, ao tentar repetir a façanha, percebi que apesar do passar dos anos e do aparente aumento da coordenação motora, o descontrole sobre o resultado da aparição do desenho é o mesmo. E quase coloquei fogo na cozinha novamente. Bateu uma grande saudade da infância!


Escrito por Eloísa Falcomer
São Paulo, 1 de junho de 2013.

segunda-feira, 4 de março de 2013

UNI, DUNI, TÊ, SALAMÊ, MINGUÊ

A menina estava sempre envolvida com as três bonecas, o cachorro e a cantoria.
De manhã bem cedo já cantarolava, brincando.
O pai, ao sair para o trabalho, deu a ela uma função:
Deveria catar as pulgas do cachorro.
Mas as pulgas pulam! Disse a menina.
Então o pai entregou-lhe um vidro com uma tampa e dizendo que ali as pulgas poderiam pular à vontade.
Ele pagaria alguns centavos de cruzeiro por cada pulga "envidrada", no final do dia.

Não seria difícil, pois o cachorro tinha um tom leitoso e adorava cafunés.
A menina passava os dedinhos entre os caminhos do cão e, de vez em quando, via uma pulga minúscula.
Começava então a aventura de ser mais rápida que elas.
Dedinhos, caminhos e pulgas! Cuidado minucioso ao pinçar a pulga entre o pequeno polegar e o indicador.
Pronto! Uma estava já garantida. Outra e mais outra.


Assim, durante muitas tardes a cantoria embalava o cão, deitado ao lado das três bonecas e a menina conseguia pelo menos umas sete pulgas para colocar no vidro.
Ela gostava de ter algumas moedas assim, como merecimento. Era até divertido.
Enquanto catava e cantava ela podia imaginar que as pulgas eram moedinhas de ouro que ela encontrava no caminho, na estradinha da floresta do cachorro.
Aquelas moedinhas um dia virariam letras e saberiam encontrar seus caminhos.

Moedinhas de ouro...
Ouro em memórias.
Ouro que são histórias
De meninas, bonecas, cachorro
e abraço de pai.

Escrito por Rita Nasser

Uni, duni, tê
Salamê, minguê
Para brincar de contê
O escolhido foi você!


Conta uma também...

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Brincando de trenzinho no quintal

Inspirado no conto “A Menina Avoada" – Manoel de Barros
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Mariana mudou-se para a casa do jardim, no início do seu sexto ano de vida.
Era uma casinha branca com alpendre.
Ficava lá no alto, com portãozinho de madeira branca e escada reta, para se chegar lá em cima.
No jardim, gramado dos dois lados da escada, depois de certo tempo, resolveram plantar um salgueiro-chorão, bem em frente do alpendre.

O quintal da casa, lugar de mil descobertas, era ladeado por árvores, canteiros de flores e a hortinha que ficava aos pés do pé de mamão. Mariana pensava: o pé de mamão, bem que podia servir de espantalho! Pensava em fazer um desse, mas era uma obra difícil de realizar.
Ficava ali, horas olhando a horta... pensando em como construir um espantalho.

Foi nesse quintal, de mil brincadeiras, que Mariana passou sua infância, na sombra das árvores, colhendo amora pra fazer suco, subindo em árvore, comendo fruta no pé, andando no telhado, pulando o muro.

A casa era rodeada por três universos distintos, de um lado o pomar do vizinho repleto de árvores, sem ninguém morando por lá. Do outro, havia o laguinho de carpas entre pedras e jardim. Ao fundo da casa um “terreno baldio” por onde se podia ganhar a rua do outro lado do quarteirão. Lá havia o bazar dos botões, cianinhas, tecidos e quinquilharias e um pouco mais adiante ficava a vendinha onde se podia comprar doces coloridos e enfeitados, com poucos tostões que, às vezes, Mariana conseguia conquistar.

O cimentado do centro do quintal era o lugar do varal.
Quando não tinha roupa secando se podia brincar de amarelinha e de andar de carrinho.
Havia o triciclo, o rema-rema, o carro vermelho e outro triciclo pequeno. Presentes de muitos Natais, que seus irmãos haviam ganhado.

Naquela época só se ganhava um presente por ano, no dia de Natal.
Um dia Mariana, dando voltas de triciclo no quintal, batendo o rosto nos lençóis pendurados ao vento, teve uma idéia...
Para fugir da reprimenda da mãe que, com certeza, iria brigar por estar andando no meio da roupa a secar, poderia juntar o triciclo ao carrinho vermelho e fazer um trenzinho.
Pensou: Minha mãe vai gostar!
Ela poderia brincar mais tempo com o triciclo, colocando o irmãozinho menor sentado no carro, feito vagão.
De um salto, resolveu construir o trem.
Foi um sucesso!

Por um tempo o trem tinha só um vagão.
Depois pensou, porque não colocar também o rema-rema, e o triciclo pequeno?
Não era mais só ela a puxar, mas todos juntos podiam ajudar o trem a andar.
Mariana, como sempre, com suas idéias, seguiu sua infância criando brincadeiras e historias, juntando imaginação e realidade, foi assim que um dia resolveu construir uma lanterna de vaga-lume...
mas essa é uma outra historia que fica para uma outra vez.

Suely Laitano Nassif

Publicado em segunda-feira, 8 de novembro de 2010
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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Os olhos da boneca

Mariana devia ter seus 9 anos.
Em um dia desses, em meio as brincadeiras,
Num tempo, logo após o Natal...
Teve um pensamento...
Teve um desejo...
Foi assim... quase como uma luz que surgiu em sua mente.


QUERIA UMA BONECA QUE FOSSE GENTE DE VERDADE
que pudesse cuidar de verdade...
não queria mais só brincar de faz-de-conta.

Ela estava muito triste.
Estava chorando, trancada no banheiro.
Ela tinha nas mãos a boneca que ganhara no Natal.
Era o seu bebê de borracha, que tomava mamadeira e molhava a fraldinha.
Última novidade em bonecas!!!
O Papai Noel tinha trazido.

Ela tinha sonhado tanto com aquele bebê...
Ele tinha durado tão pouco tempo!!!

Sua tristeza era enorme.
Lembra ainda da cena, que acabara  de acontecer.
Estava brincando no quintal, com seu bebe deitado no bercinho.
Quando o cachorro o encontrou e achando que também podia brincar...
saiu com ele na boca, no meio dos dentes.
Foi um custo resgatar o boneco!!!

Ela ainda sentia o tremor que invadira seu corpo...
ao receber de volta seu bebe...das garras do cachorro,
sem saber ao certo o que tinha acontecido.

A borracha tinha resistido...
mas o bebe tinha ficado para sempre sem aqueles seus os olhos azuis!!
Foi com essa grande tristeza que Mariana se trancou no banheiro naquele dia.
Só se acalmou depois que teve aquela  ideia: um dia iria ter um bebe de verdade!!  

Mariana, brincou com seu bebe de boracha por muitos e muitos anos...
Com aquele seu boneco tão desejado, que tinha ficado sem os olhos.

Mariana toda vez que olhava pra ele imaginava
que ele tinha olhos de verdade...
aproveitava assim e imaginava  o dia que teria seu bebê de verdade!!!

Por Suely Laitano Nassif

sábado, 24 de dezembro de 2011

Encontro com o Papai Noel

Era Natal, Mariana tinha 4 anos e um só pensamento...
descobrir um modo de ver o Papai Noel colocar os presentes na árvore de Natal.

Passava os dias andando de lá pra cá...
com seus pezinhos pequenos pisando no assoalho encerado da casa,
subindo e descendo as escadas do quintal,
andando pelos caminhos de terra no meio das flores do jardim...
mesmo brincando, tinha sempre o mesmo pensamento:
Como poderia fazer para ver o Papai Noel?
Como fazer para saber como ele era?
Como fazer para saber antes de todos o que iria ganhar de Natal?

Mariana acompanhava o ritmo dos preparativos da festa com esse pensamento fixo, até que, em uma noite dessas, deitada na cama, fazendo de conta que já estava dormindo...
Teve uma idéia!!!

Ela pensou em colocar um fio quase invisível na frente da árvore.
O Papai Noel não perceberia, mas o fio denunciaria sua presença.
Mariana poderia realizar seu desejo: saber quem era o Papai Noel!!!
E ficou feliz com sua idéia!!!

Eis que surge uma dificuldade...
Que fio poderia ser? De pronto, uma idéia resolveu rápido o problema...
O carretel de linha branca, da cestinha de costura da mamãe!
Que idéia maravilhosa!!!

Mas logo surge outra dificuldade...
Como iria colocar esse fio? Pensou, pensou... e a idéia não vinha.
Onde prender o fio? Pensou, pensou...
tinha que prender uma ponta do fio em alguma coisa na mesa da ceia
e a outra ponta tinha que ficar segurando
para que o fio pudesse ficar esticado em linha reta na frente da árvore...
Ufa!!! Poderia funcionar...


Mas teria que cuidar para não perder o fio...
Logo pensou... é só enrolar o fio várias vezes na mãozinha...
Mariana ficou feliz com a idéia!!!

De repente, mais uma dificuldade... onde prender o fio na mesa?
Esta foi uma escolha difícil de tomar!!!
Se prendesse no pé da mesa??? Papai Noel poderia tropeçar.
Se prendesse na jarra de água??? Poderia derramar a água na toalha ou quebrar a jarra.
Se prendesse no prato??? Não tinha onde prender.
Se amarrasse nos garfos e facas??? Eram leves demais... e se caíssem iriam fazer barulho e acordar todo mundo.
E na perna do peru??? Também poderia não dar certo... se ele saísse da travessa poderia sujar a toalha .
Tinha que ser algo diferente...

Pensou... pensou...
Foi quando teve uma idéia.
Poderia prender o fio de linha branca no cabinho de uma cereja.
Que idéia maravilhosa!!!
Não causaria estrago. Não faria barulho.... e poderia segurar o fio.
Mariana ficou radiante com a idéia!!! Tinha resolvido todos os problemas.

Feliz, pode dormir, sonhando com sua invenção...
Enfim poderia ver o Papai Noel e o seu presente, antes de todo mundo, em segredo, só ela e o Papai Noel.
Que mágico!!!
Dormiu e sonhou com o encontro...
A idéia saiu da cabeça e nem precisou mais ser colocada em prática.

domingo, 8 de maio de 2011

MINHA ADORADA MÃEZINHA

Era uma semana antes do “Dia das Mães”.
Havia uma grande expectativa e muitos preparativos.

A professora pediu a todos que escrevessem uma carta para as mães. Todos deveriam escrever no caderno e depois copiar no papel almaço, com letra caprichada e decorar a folha para entregar o texto como presente.

Mariana estava no 4ª. ano primário.
Mariana estava apreensiva...
Como escrever uma carta?
Como escrever com letra caprichada?
Como preencher aquela folha de almaço tão grande!!!...

Olhando as colegas, foi percebendo como cada uma delas fazia.
Pensava, tristemente: “Era quase impossível escrever tantas frases.”
Assim começou muitas vezes... apagou outra tantas.
Pensava assustada, como fazer no grande dia, se não acabasse o trabalho.
Como não ter nada para entregar de presente para a sua mãe, tão querida!

Então, mais uma vez... concentrava-se no lápis e papel tentando construir as frases.
Era inútil!!!

Até que no seu “senta-levanta”... encontrou uma folha de almaço com muita coisa escrita de uma colega. Olhou bem o escrito e resolveu completar o que já estava feito.
Ufa! Enfim, tinha encontrado uma solução.
Agora tinha que caprichar na dedicatória... escreveu: “para minha adorada mãezinha”.
Pronto... ficou pronto!!!

Mas a professora, indiferente a todo seu esforço, não gostou da dedicatória ... pois adorar, só se adora a Deus.
Pediu que apagasse e escolhesse outro adjetivo... pois adorar só a Deus.
Mariana se recusou a apagar e sua carta foi para a diretoria.
Humilhada mais uma vez... mesmo tendo “caprichado” na letra, completado o texto... 
Agora, só por causa do adorada??? Não era possível!

Quando a mãe foi buscá-la... tiveram que ir falar com a diretora.
Elas queriam de qualquer forma que Mariana apagasse o “adorada”.
Mariana insistiu que não iria apagar... mesmo que pudesse ser expulsa da escola.
Ficou tremendo de medo... mas continuou insistindo.
Não apagou...
Tinha dado muito trabalho... não conseguiria escrever outra vez.

Assim, saiu da diretoria de mãos dadas com a mãe e com a sua carta dedicada a sua adorada mãezinha.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

O menino e a rosa - Helen Buckley

Era uma vez um menininho bastante pequeno que contrastava com a escola bastante grande.
Uma manhã, a professora disse:
- Hoje nós iremos fazer um desenho.
"Que bom!"- pensou o menininho. Ele gostava de desenhar leões, tigres, galinhas, vacas, trens e barcos... Pegou a sua caixa de lápis-de-cor e começou a desenhar.

A professora então disse:
- Esperem, ainda não é hora de começar!
Ela esperou até que todos estivessem prontos.
- Agora, disse a professora, nós iremos desenhar flores.

"Que bom!". Pensou o menininho. Ele gostava de fazer flores. E começou a desenhar bonitas flores com seus lápis rosa, laranja e azul.

A professora disse:
- Esperem! Vou mostrar como fazer.
E a flor era vermelha com caule verde.
- Assim, disse a professora, agora vocês podem começar.

O menininho olhou para a flor da professora, então olhou para a sua flor. Gostou mais da sua flor, mas não podia dizer isso... Virou o papel e desenhou uma flor igual a da professora.
Era vermelha com caule verde.

Num outro dia, quando o menininho estava em aula ao ar livre, a professora disse:
- Hoje nós iremos fazer alguma coisa com o barro.
"Que bom!". Pensou o menininho. Ele gostava de trabalhar com barro. Podia fazer com ele todos os tipos de coisas: elefantes, camundongos, carros e caminhões. Começou a juntar e amassar a sua bola de barro.

Então, a professora disse:
- Esperem! Não é hora de começar!
Ela esperou até que todos estivessem prontos.
- Agora, disse a professora, nós iremos fazer um prato.
"Que bom!" - pensou o menininho.
Ele gostava de fazer pratos de todas as formas e tamanhos.

A professora disse:
- Esperem! Vou mostrar como se faz. E ela mostrou para todos como fazer um prato fundo.
- Assim, disse a professora, agora vocês podem começar.

O menininho olhou para o prato da professora, olhou para o próprio prato e gostou mais do seu, mas ele não podia dizer isso. E fez um prato fundo, igual ao da professora.

E muito cedo o menininho aprendeu a esperar e a olhar, e a fazer as coisas exatamente como a professora. E muito cedo ele não fazia mais coisas por si próprio.
Então, aconteceu que o menininho teve que mudar de escola. Essa escola era ainda maior que a primeira.

No primeiro dia a professora disse:
- Hoje nós vamos fazer um desenho.
"Que bom!"- pensou o menininho e esperou que a professora dissesse o que fazer.
Mas a professora não disse nada. Apenas andava pela sala.

Então, ela foi até o menininho e disse:
- Você não quer desenhar?
- Sim, disse o menininho, e o que é que nós vamos fazer?
- Eu não sei, até que você o faça, disse a professora.
- Como eu posso fazê-lo?
- Da maneira que você quiser.
- E de que cor?
- Qualquer cor, disse a professora.
- Se todo mundo fizer o mesmo desenho e usar as mesmas cores, como eu posso saber o que cada um gosta de desenhar?
- Eu não sei... disse o menininho.

E então, ele começou a desenhar uma flor vermelha com o caule verde.

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THE LITTLE BOY
By Helen E. Buckley

Once a little boy went to school.
One morning, when the little boy had been in school a while, his teacher said:
- Today we are going to make a picture.
“Good!” thought the little boy. He liked to make pictures. He could make all kinds. Lions and tigers, Chickens and cows, trains and boats, and he took out his box of crayons and began to draw.

But the teacher said:
- Wait! It is not time to begin!
And she waited until everyone looked ready.
- Now, said the teacher, we are going to make flowers.

“Good!” thought the little boy, he liked to make flowers, and he began to make beautiful ones with his pink and orange and blue crayons.

But the teacher said:
- Wait! And I will show you how.”
And it was red with a green stem.
- There, said the teacher, now you may begin.

The little boy looked at the teacher’s. Then he looked at this own flower. He liked his flower better than the teacher’s. But he did not say this. He just turned his paper over. And made a flower like the teacher’s.
It was red with a green stem.

On another day, when the little boy had opened the door from the outside all by himself, the teacher said: “Today we are going to make something with clay.”
“Good!” thought the little boy. Snakes and snowmen, elephants and mice, cars, and trucks, and he began to pull and pinch his ball of clay.

But the teacher said:
- Wait! It is not time to begin!”
And she waited until everyone looked ready.
- Now, said the teacher, we are going to make a dish.
He liked to make dishes. And he began to make some that were all shapes and sizes.

But the teacher said:
- Wait! And I will show you how. And she showed everyone how to make a deep dish.
- There, said the teacher, now you may begin.

The little boy looked at the teacher’s dish, then he looked at his own. He liked his dish better than the teacher’s. But he did not say this. He just rolled his clay into a big ball again. And made a dish like the teacher’s. It was a deep dish.

And pretty soon the little boy learned to wait, and to watch and to make things just like the teacher. And pretty soon he didn’t make things of his own anymore.

Then it happened that the little boy and his family moved to another house, in another city, and the little boy had to go to another school.

And the very first day he was there the teacher said:
- Today we are going to make a picture.
“Good!” Thought the little boy and he waited for the teacher to tell him what to do.
But the teacher didn’t say anything. She just walked around the room.

When she came to the little boy she said:
- Don’t you want to make a picture?
- Yes, said the little boy, what are we going to make?
- I don’t know until you make it, said the teacher.
- How shall I make it? asked the little boy.
- Why, any way you like, said the teacher.
- Any color? asked the little boy.
- Any color, said the teacher.
- If everyone made the same picture, and the used the same colors, how would I know who made what?
- I don’t know, said the little boy.

And he began to make a red flower with a green stem.


Renata Quirino de Sousa
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quarta-feira, 27 de outubro de 2010

A menina avoada - Manoel de Barros

"Foi na fazenda de meu pai antigamente
Eu teria dois anos; meu irmão, nove.

Meu irmão pregava no caixote
duas rodas de lata de goiabada.
A gente ia viajar.

As rodas ficavam cambaias debaixo do caixote:
Uma olhava para a outra.
Na hora de caminhar
as rodas se abriam para o lado de fora.
De forma que o carro se arrastava no chão.
Eu ia pousada dentro do caixote
com as perninhas encolhidas.
Imitava estar viajando.

Meu irmão puxava o caixote
por uma corda de embira.
Mas o carro era diz-que puxado por dois bois.

Eu comandava os bois:
- Puxa, Maravilha!
- Avança, Redomão!
Meu irmão falava
que eu tomasse cuidado
porque Redomão era coiceiro.

As cigarras derretiam a tarde com seus cantos.
Meu irmão desejava alcançar logo a cidade -
Porque ele tinha uma namorada lá.
A namorada do meu irmão dava febre no corpo dele.
Isso ele contava.

No caminho, antes, a gente precisava
de atravessar um rio inventado.
Na travessia o carro afundou
e os bois morreram afogados.
Eu não morri porque o rio era inventado.

Sempre a gente só chegava no fim do quintal
E meu irmão nunca via a namorada dele -
Que diz-que dava febre em seu corpo."
(Manoel de Barros)

Suely Laitano Nassif e Bianca Giannotti Barros

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Brincando de trenzinho no quintal

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

O encontro de Mariana com a literatura

Mariana seguiu seus primeiros oito anos de escola, com problemas de leitura e escrita,
escrevendo errado, escrevendo com letra feia...
Por mais que se esforçasse,
por mais que se propusesse a manter os cadernos em ordem,
eles nunca ficavam como ela gostaria!

Além dos erros, das seguidas correções, da letra e da desordem nas lições,
ainda havia aquelas “orelhas” que o tempo todo se multiplicavam...
Não adiantava arrancar as páginas, para refazer as tarefas.
O caderno ficava sempre todo retorcido.
O único desejo era mesmo poder comprar um caderno novo... mas, não adiantava!
Logo todo aquele pesadelo voltava outra vez a acontecer!

Mesmo assim, com todas essas dificuldades,
ela conseguiu não repetir nenhum ano,
ela conseguiu notas para passar, valendo-se de suas outras habilidades.

Como toda menina de seu tempo, deveria fazer o Curso Normal.
Deveria ser professora, para ter uma profissão, para ganhar o seu dinheiro.
Ela sabia que isso não seria possível, mas deixou o tempo passar sem se importar...
Até que o tempo dos exames chegou...
Ela, então, prestou a primeira e depois a segunda época...
Obteve a melhor nota em matemática, nas duas vezes que prestou,
mas não conseguiu passar em nenhuma das provas de “português”.
O que seria então da sua vida?

Foi um choque!
Foi um grande choque, saber o que fazer dali para frente!

Enfrentando o medo que sua secreta escolha lhe provocava,
ela falou aos pais daquele seu antigo desejo.
Ela falou de sua vontade de fazer medicina.
Ela falou de sua vontade de poder cuidar de gente, como sonhara quando pequena.
Ela falou em cursar o “científico”... onde poderia estudar as matérias que tinha mais facilidade,
onde a escrita e a letra feia não teriam tanta importância.

No entanto, talvez por destino ou sem querer... quem sabe?
Ela se lembrou de certo aviso, que fora passado... e só agora se dava conta:
“não haveria mais o curso científico, naquele colégio só de meninas”

Então, vencendo o medo, pensando em seu sonho de infância...
ela implorou aos pais que queria mudar de escola para cursar o científico.
Eles consideraram que possivelmente ela perderia a bolsa de estudos...
que não poderiam buscá-la na nova escola...

Seu desejo não poderia ser realizado!

Foi assim que...
para não perder a chance,
para não parar de estudar,
para tomar seu futuro pela mão...
que fez sua matricula no colegial “clássico”... na mesma escola de sempre.

Fez uma revolução em sua vida!

Passou a se aplicar em todas as aulas, em cada ensinamento!!!
Fez grandes descobertas nesse novo mundo de conhecimentos!!!
Descobriu: a Filosofia, a História, o Latim...
em meio às inúmeras aulas de gramática e redação portuguesa, francesa, inglesa e latina...

Assim,
se ao iniciar o primeiro grau, ela havia descoberto que nem todas as histórias que ouvira eram História...
que há uma diferença entre histórias e História...
Agora,
ao iniciar o segundo grau, ela descobre que existem leituras e Leitura...
que algumas leituras são LITERATURA...
elas são muitas...
a literatura brasileira, a portuguesa, a francesa, a inglesa ... e até aquela apelidada de “lit lat”, a latina.

Quanto encantamento!
Que mundo mágico se descortinou para ela em infinitas possibilidades!

Encantada lê todos os livros da lista para o vestibular e outros mais...
Torna-se uma aluna primorosa... alça vôo nas asas da imaginação e da criatividade...
Fortalecida,
decide fazer faculdade: Pedagogia...
com o desejo de ajudar as crianças,
que como ela, possuem dificuldades para aprender.

A Literatura, a Filosofia e a Historia tecem um novo horizonte para sua vida.

Suely Laitano Nassif
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terça-feira, 31 de agosto de 2010

A borboleta azul

A primeira apresentação minha no palco da escola foi com a fantasia de Borboleta Azul.

Minha mãe costurou o corpete, pôs uma sainha de tule, um calção fofo por baixo, fez umas antenas lindas de lantejoulas douradas e umas asas lindas muito bem pregadas nas costas e no pé sapatilhas, como de uma bailarina.

Eu só tinha visto o palco umas poucas vezes.
Ele era enorme, eu achava, com tábuas de madeira bem encerada.

Ensaiamos várias vezes sem as fantasias.
Havia uma marcação a seguir.
Eu a memorizei.

No dia da apresentação, veio a família, minha prima se sentou na frente com minha tia.

A emoção dentro do peito era enorme!
Eu era uma menina falante e tal, mas daí a entrar no palco feito borboleta, ao som da música de fundo, nas pontas dos pés, bem delicada, batendo asas e chamar as demais borboletas coloridas para esvoaçarem pelo palco comigo, essa era a minha missão.

Assim que entrei, fui aplaudida e isso me deu mais confiança.
A timidez me levou a evitar olhar a platéia de frente, conforme me ensinara a professora Dona Edna. Olhei de um lado, depois do outro, mas nunca para frente e fui fazendo vôos e mais vôos pelo palco.

Assim que as outras borboletas, minhas colegas, de todas as cores também entraram tudo ficou mais fácil.

Minha prima, hoje mãe de um rapaz de vinte anos não se esquece do dia em que me viu entrando de borboleta no palco.
E eu?
Ah, eu gostei muito de ter desempenhado bem o papel de borboleta em plena primavera.


Ana Lúcia Brandão

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sábado, 21 de agosto de 2010

Meu guarda-chuva amarelo

Daqueles dias de infância, me vem à lembrança o meu guarda-chuva amarelo.

Tinha então meus 9 anos.
Estava feliz, me sentindo “gente grande”, pois tinha ganhado um lindo guarda-chuva amarelo, da minha madrinha querida, no Natal daquele ano.
Ela sempre me surpreendia!
Acostumada a ganhar um presente só, ela sempre me dava muito mais do que isso.
Era uma felicidade tão grande, ter uma madrinha assim!!!
A cada pacote que abria...uma nova surpresa!
Naquele ano, ganhara o guarda-chuva amarelo.
Podia usar com sol. Podia usar com chuva... porque ele era amarelo.

Foi assim que em uma tarde quente, de vento e sol, de um verão escaldante...

Sai eu, com meu guarda-chuva amarelo, pra me proteger de todo aquele o sol.
Desci toda a rua de frente da minha casa. Ia virando a esquina... ali bem perto da grande pilha de tijolo de mais uma construção. Quando me deparo... com um cavalo solto correndo pela rua.
Foi um susto!!!!
Foi um susto para mim e para ele.
Não sei ao certo o que aconteceu, mas ele veio na minha direção, talvez pelo amarelo do guarda-chuva que balançava sobre a minha cabeça.

Sem saber o que fazer, corri para atrás da pilha de tijolos, sumindo assim do meio da rua.
Ele ficou ali... por algum tempo... tentando me encontrar.
Eu com meu coração batendo forte... sentindo ele se aproximar da pilha onde estava. Fechei rapidinho meu guarda-chuva, assim ele não podia me reconhecer.

De repente, vejo a cabeça dele do outro lado da pilha...
Ficou ali tão perto... mas tão perto... quase podia tocá-lo. Olhou pra mim por um tempo, acho que ficou com dó de me ver assim tão assustada. Foi-se embora.
Que susto!
Ele seguiu seu caminho.
Eu continuei o meu, descendo a rua no sentido contrário, indo para a casa da minha professora de pintura.

Não foi o vento que quase me levou... mas foi um grande susto!

Suely Laitano Nassif
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quarta-feira, 11 de agosto de 2010

A menina que morreu

Eu devia ter uns 5 anos.
Estava brincando no quintal... era meio da tarde...
naquele longo quintal da casa da minha avó, no Paraíso.

Naquele quintal enorme...
do grande carvalho e dos eucaliptos, que marcavam o começo do fim do quintal.
Era lá que ficavam o balanço... a pitangueira... Depois deles, havia uma espécie de mato grande, lugar de pouco acesso, cercado pelo muro que, nesse pedaço, era coberto de musgo. Foi lá que, em um tempo, meu avô construiu um grande galinheiro... com galinhas todas brancas.

Estava naquela outra parte ensolarada, mais próxima da casa...
naquele espaço cortado por um caminho que separava o canteiro de flores, da horta...
daquele pedaço de muro...
que tinha um buraco de onde podia ver a casa do vizinho.

Entre a casa e o quintal havia um largo corredor na entrada da casa,
com um portão de madeira muito alto, pintado de marrom,
que fazia barulho quando se abria e quando se fechava.
Foi o barulho do portão que me chamou a atenção.

Minha mãe e minha avó tinham chegado da rua e logo foram contando para o meu avô o acontecido, sem saber que eu estava ouvindo. Elas falaram do bonde, do bonde camarão... uma coisa assim... de uma menina que morava numa rua em que passava o bonde... e que ela tinha morrido. Fiquei assustada, sem compreender direito!!!
A menina estava brincando de pular, pular corda... pular os degraus da casa... se desequilibrou e o vaso virou sobre ela e ela morreu.
Que história aquela!

Como será que um vaso pode cair e matar uma menina?
Precisava saber logo como isso podia acontecer. Desci correndo as escadas do quintal... entrei em casa... perguntando como e por quê. Não devia ter ouvido a história, por isso eles desconversaram... e eu fiquei para sempre querendo entender como tudo tinha acontecido.

Em minha memória, era uma casa perto de uma esquina onde o bonde fazia a curva. A casa tinha uma escada na entrada, com dois grandes vasos... e a menina brincando... encostou em um deles... e de repente... alguma coisa aconteceu e ela morreu. Como? Onde?
Fiquei sem saber.
Foi só agora, escrevendo as histórias, que descobri.

Este episódio mudou completamente o rumo da minha vida,
sem mesmo saber direito o que tinha acontecido.

Minha mãe tinha ido ver uma casa na rua, para a gente mudar e ficou sabendo do ocorrido. Por causa disso, deixei de ir morar no Bosque e fui morar no Jardim.

Nunca esqueci a aflição que senti...
pensando na menina com seu vestido de organdi,
na poça de sangue e terra...

Suely Laitano Nassif
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sábado, 31 de julho de 2010

A medalha de ouro

Foi em um final de tarde... início de noite,
daqueles dias em que fica claro até mais tarde...
ou que fica escuro bem mais cedo.

Estávamos todos na cozinha da casa da minha mãe, à espera da canja, no final do domingo.
Meu pai tinha tomado um copo de vinho e estávamos tranquilamente conversando, sentados à mesa. Não me lembro bem quem estava presente...
Éramos, provavelmente, 7 a 8 adultos e as crianças: as meninas à minha volta, o Vinícius bem pequeno, não sei, mas acho que o Gustavo era um bebê. Além de nós, os que moravam na casa, o Sérgio, meu pai e minha mãe.

Ela estava no fogão.
Meu pai veio sentar-se à mesa, à espera da canja.
Sem mesmo interromper a conversa, ele começou a falar e contou... como se estivesse contando para ele mesmo, com um sorriso nos lábios, sobre as lembranças de um dia distante, mas ainda muito vivo em sua memória.

Começou dizendo que, durante muitos anos, havia feito de tudo para conseguir ganhar uma medalha nas competições de remo. Mas, que, por mais que tivesse se esforçado, nunca havia conseguido.

Naquele dia, em que estava competindo com um skiff - barco de competição para uma pessoa só - as coisas passaram a ser diferentes. Ele disse que, assim que foi dada a largada, ele se concentrou ao máximo na marcação e no ritmo... deixando de prestar atenção a todo o resto.

Imagino o som do remo batendo na água, no compasso marcado...
Imagino a respiração ... o esforço dos músculos.
Imagino o barco cortando a água da represa... deslizando para frente... sempre em frente.
Quando, em um dado momento... como que saindo de um transe... ele volta à realidade e olha em torno.
Ele disse que se assustou muito.
Não viu ninguém à sua volta. Estava só, no meio de toda aquela água... seguindo em frente, não avistando ninguém, pensando que, mais uma vez, havia ficado para trás.
Teve esta certeza, por uma fração de segundo.
Quando, olhou para frente e viu a faixa de chegada.
Emocionado, soube que tinha vencido.
Esta foi uma das poucas histórias que escutei do meu pai.
Inesquecível!

Como se pode ouvir uma história como essa...
carregada de tantos sentimentos e significados?

Penso que nenhum de nós, naquele momento, conseguiu dizer alguma coisa para ele.
Falamos algo que nos veio à mente, mais nada além disso.

Não nos damos conta da importância de cada segundo de nossa existência, segundos preciosos que deixamos passar.
Diante de uma “vivência compartilhada” como esta, não estamos preparados para escutar, compreender e acolher.

No entanto, nos momentos difíceis da minha vida... coloco-me no lugar do meu pai.
Lutando ombro a ombro com as dificuldades para atingir um objetivo...
perseverando, acreditando, não importando quanto tempo possa levar para conquistar uma medalha... real ou metafórica...

O ensinamento ficou.
Ensinamento como aquele da narrativa do livro de Jó.
Como Jó,
meu pai sempre acreditou...
meu pai me ensinou a acreditar...

Suely Laitano Nassif
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terça-feira, 27 de julho de 2010

Um presente do vento

São muitas as histórias de vento!!!

Na minha infância o vento era forte... muito forte...
era grande... era imenso.
Ele vinha assim de repente, varrendo tudo que via pela frente.
Tínhamos que conviver com ele,
as vezes só vento,
as vezes trazendo a chuva.

Depois do vento, depois da chuva...
sempre encontrávamos coisas no quintal.

Num desses dias, depois de passada a tormenta...
Querendo brincar no quintal molhado...
Tivemos uma surpresa!

Num canto do quintal
havia um amontoado grande...
que ficara preso nos galhos da amoreira.
Ficamos com medo de nos aproximar.
O que poderia ser aquilo?

Hesitei por uns instantes,
resolvi pegar um cabo de vassoura...
para com um empurrão aqui, outro ali...
deixar cair o amontoado que estava preso na árvore.

Caiu no chão pesadamente.
O que poderia ser aquilo?
Nesse instante, minha mãe chamou para o jantar...
Foi melhor assim... podia adiar o próximo passo.

No dia seguinte o volume com cara de coisa mais conhecida
Podia enfim ser desembrulhado.

Que surpresa!!!!
Era uma colcha de crochê... cuidadosamente confeccionada,
que seguiu conosco por muitos e muitos anos...

Esperei por muito tempo que alguém viesse reclamar por ela.
Mas como saber?
Como devolver o que o vento tinha trazido?

Meu coração sempre ficava apertado com esses pensamentos...
Sempre me perguntava:
Quem teria perdido aquela peça? Que significado teria?

Suely Laitano Nassif
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segunda-feira, 28 de junho de 2010

A foto da menina com a boneca

Foi desta mesma época... a historia da foto com a boneca.
Sua avó tinha muitas irmãs.

Uma delas morava perto do Museu do Ipiranga.
Em um sobrado com varandinha na frente. Outra daquelas casas de assoalho impecável. Tudo muito arrumado, cheio de troféus, quadros... e um piano pomposo na sala lateral.

Era costume da família... ter uma chapeleira na entrada.
Na chapeleira da casa da tia Elvira, irmã da avó, havia como enfeite uma linda boneca de porcelana, de vestido de seda e cabelos perfeitamente arrumados. Uma peça preciosa, delicadíssima, que era exibida com muito orgulho.
Em uma tarde de domingo, foram visitá-la e levar seu irmãozinho para que ela o conhecesse.
Mariana, assim que chegou na casa, ficou encantada com a boneca.

Logo disseram que ela não poderia mexer nela.
A idéia ficou na sua cabeça o tempo todo enquanto esteve lá.
Queria a boneca.
Tinha que pegar aquela boneca no colo.
Parecia impossível!

A visita seguiu e, depois do chá, resolveram passear no jardim do museu que ficava ali perto. Aproveitariam para tirar umas fotos.
Mariana, quando soube da foto, foi logo dizendo que queria tirar uma foto com a boneca.
Todos ficaram intrigados com a idéia.Todos tentando persuadi-la que não seria possível.
Mariana não conseguia entender como não poderia ir com a boneca...era só para tirar uma foto!Tanto fez que os adultos não tiveram outra escolha senão levar a boneca no passeio.
Mariana tirou a foto desejada... mas o sorriso não conseguiu aparecer na foto. Foi assim que Mariana inaugurou uma longa série de fotos sem sorrir, sempre por algum motivo, que ela não conseguia compreender direito o significado ou que não conseguia se explicar para conseguir o que queria. Ela se ressentia.

Suely Laitano Nassif
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sábado, 26 de junho de 2010

Usando o chapéu do vovô

Nessa época, ela morava na casa da rua Apeninos. Tinha um pouco mais do que dois anos. O primeiro irmãozinho tinha acabado de nascer.

Esta é uma casa cheia de lembranças, marcadas pelo céu azul intenso do quintal, que contrastava com o interior escuro da casa e seu assoalho de taboa larga... usadas como piso nas casas antigas. Assoalho sempre bem encerado, cheirando a limpeza e comida gostosa.

Ela morava com os seus pais, numa daquelas casas antigas... que ainda existem na rua Apeninos. Eram duas casa, uma em cima da outra.
Os avós moravam na de cima e os pais na de baixo. As casas se comunicavam por uma escada de cimento rústico, bem lavado... na lateral externa da casa. A escada tinha dois lances, separados por um patamar, como um terraço que dava para o Tênis Club Paulista, que ficava na rua debaixo. Neste patamar ficava o “quarador” de roupa... feito, como se usava naquele tempo, com uma folha de zinco, cheirando a água e sabão... cheirado a roupa limpa aquecida de sol.

Esta é uma casa cheia de lembranças!
Foi lá que Mariana viu chegar o rádio. Um radio grande de válvula que veio ocupar um lugar central na sala da casa dos pais. Na mesa redonda... com toalha de veludo, adamascado. “O que seria aquilo?”, pensou Mariana.
A lâmpada do lustre da sala... ganhou uma peça diferente... e o rádio foi ligado no lustre.
Quanta admiração!
Logo, Mariana deixou de lado a novidade e seguiu com sua vidinha, explorando tudo à sua volta.

Foi lá que viu chegar seu irmãozinho de olhos azuis.
Foi lá que Mariana, em uma certa manhã de sol... estava com seu avô na casa de cima, provavelmente porque sua mãe estava ocupada com o irmãozinho... Como fazia todos os dias.
Estava ela sentada em sua pequena cadeira de balanço... vendo o avô tomar café... Tinha esse costume, ficava ali com ele conversando, ouvindo historias, musica... que a vaziam devanear...

Em um certo momento...
Talvez porque houvesse descoberto o chapéu do avô, pendurado na chapeleira...
Talvez porque o avô quisesse criar uma nova brincadeira...
Surgiu a brincadeira de andar com o chapéu do vovô...
que coisa divertida!!!
O chapéu era grande... e ficava caindo de um lado e de outro. Podia ver só para baixo... por ora tudo ficava mais escuro... sem conseguir ver nada a sua volta.

Estava se achando demais!!! Então veio a idéia... queria ir mostrar para a mãe...
E lá foi ela, equilibrando o chapéu... descendo as escadas... um, dois, três degraus... podia ver o quaradouro com as roupas secando ao sol. Podia ver as bolinhas de um lado para o outro dos jogadores de tênis... lá embaixo. Quando o chapéu veio pra frente... cobriu a visão. Atrapalhada... tentanto colocar o chapéu do jeito que tinha gostado, distraiu-se. Não via mais nada, não viu o próximo degrau...tropeçou e caiu.

O chapéu ajudou na queda... a não se machucar demais. Ela bateu com o rostinho no zinco e se cortou.
Foi um grande reboliço... todos correram... Ela ficou com uma pequena marquinha bem debaixo do olho, que tem até hoje... agora no meio da face.

Suely Laitano Nassif
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sexta-feira, 18 de junho de 2010

A Flor Mais Grande do Mundo

"Este é o conto que queria contar.
Sinto não poder narrar contos infantis,
Mas pelo menos, já sabem
Como seria a historia e podem explicar de outra maneira
Com palavras mais sensíveis do que as minhas
E, que talvez mais adiante
É que saberei escrever histórias para crianças.
Quem me diz que um dia não escutarei outra vez esta história
Escrita por você, mas de uma forma mais bonita.

E se as histórias para crianças fossem de leitura obrigatória para adultos?
Seriamos realmente capazes de aprender o que a tanto tempo elas vêem nos ensinando?"
Jose Saramago


Por Suely Laitano Nassif

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domingo, 6 de junho de 2010

A menina e o vento

Muitas são as lembranças... que dançam em minha memória, dos tempos de infância...
daqueles tempos de tantas histórias.

Lembro daqueles dias...
Nós já éramos 4 quando ela nasceu. Uma menina miudinha...e loirinha, muito delicada desde sempre, que foi para nós um grande encantamento.

Ela era a nossa pequena irmãzinha!
Era mais uma menina! Agora seriamos 3 meninas!
Ela era a terceira mas, na verdade, acabou sendo a primeira das 3 últimas meninas de casa.

Naqueles tempos, já éramos uma família grande. Estávamos em 1956-7.
As crianças, entrosadas, participavam das lidas da casa.
Nos finais de semana, o Silvio gostava de fazer faxina na casa.
Ainda lembro-me do esfregão... dos baldes d’água... lavando o chão...tirando tudo da casa para tomar sol, para só, à tarde ...com tudo seco... encerar e lustrar o chão e colocar os móveis no lugar.
A casa era assim... um lugar de grandes brincadeiras..no final de semana. Ela substituía o quintal de mil descobertas e encantamentos dos dias de semana.

Neste tempo morávamos na casa da França Junior.
A casa ficava no alto... em uma rua de poucas construções... de frente a um grande terreno “baldio”. Pode ser que seja por isso que tivesse tanto vento.
Era um vento muito forte!
Existem muitas histórias relacionas a esse vento, que abraçava a casa por todos os lados..., que atravessava a casa, se as portas e janelas ficassem abertas.

Lembro-me de um daqueles domingos com a casa desmontada... as janelas e portas abertas.
Quando nos demos conta...da nossa pequena, que começava a andar.
Ela vinha de dentro da casa... com seus passinhos ainda incertos ... tentando abrir a porta da cozinha e a porta de tela...

Eu estava no quintal ensolarado quando me virei e vi a cena... e vi o vento.
Corri pedindo que ela não se afastasse da porta... com medo que o vento pudesse levá-la.
É assim que me lembro...como todos nós ficamos preocupados com a pequena... porque, para nós, ela era muito pequena... tão pequena que, se não cuidássemos, o vento podia levá-la.

Assim foi que, em nosso imaginário, surgiu a figura da “menina que o vento pode levar”...
Uma historia que fala de uma família e de suas histórias em busca de sentido e significado... em busca de consciência e de identidade.
Afinal, o que é uma família? Como ela se forma?
Como as mães trazem seus filhos à luz... à vida, e como, no desenrolar imperceptível do dia-a-dia vai-se construindo a existência ... que deve vir a constituir uma alma ?
Ah! Quantas histórias!!!
Quanto há a ser dito sobre as mães, que fica, assim, tão escondido!!!

Suely Laitano Nassif
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Postagens relacionadas:
Conta-Reconta: A menina e o vento

sábado, 5 de junho de 2010

A menina que dormia em qualquer canto

Muitas são as lembranças que dançam em minha memória, dos tempos de minha infância... daqueles tempos de tantas histórias!

Lembro-me daqueles dias...
Nós já éramos 5 quando ela nasceu. Uma menininha de olhos bem azuis e cabelos cor-de-mel. Assim que chegou, o berço ainda estava ocupado; então, ela ia dormir no cestinho de vime, todo arrumado com babados e fitas, especialmente preparado para ela.

Não sei bem por que motivo, em um desses dias, logo após ter chegado da maternidade, alguma coisa aconteceu...
e, por algumas horas, minha mãe resolveu colocá-la pra dormir na gaveta de cima da cômoda.
Que coisa admirável!!!
Ter um bebê dormindo na gaveta da cômoda!!!
Que tempos mágicos foram aqueles!
Daquela casa cheia de crianças...
do quintal, das árvores, das flores, da horta... das galinhas e tantos outros bichos...
da casa...sempre limpa, cheirando a comida gostosa.

Foi assim que começou a historia que virou lenda... da irmãzinha “que dormia em qualquer canto”.

Ela chegou em um tempo de muitas mudanças, ou, foi sua chegada que provocou muitas mudanças... talvez um pouco de cada.
A casa estava ficando muito pequena, os quartos cheios de camas. Assim, quando o cestinho ficou pequeno, ela passou para o berço...
a Cê foi para a cama, e eu, que era a mais velha, fui dormir no quarto com a minha avó...
ganhei de presente a possibilidade de ver as estrelas todas as noites antes de dormir.

Antes que ela completasse seus 3 anos, mudamos pra casa grande da Pierre Curie.
Ela já andava por toda a casa... e sempre acabava dormindo em algum lugar inesperado...
deixando a todos “desesperados” para encontrá-la. O medo era que ela pudesse ter ido para a rua.
Esta casa não tinha as escadas e o portão... o portão dava direto para a rua e, muitas vezes, nós o encontrávamos aberto.

Outra historia, que se junta a essa foi que, um pouco mais tarde, ela já era maiorzinha, já com outra irmãzinha pequena, e, à noite, após o jantar, resolvi levá-la para a cama, pois tinha dormido no sofá da sala. Quando estava subindo as escadas, com ela nos braços, ela escorregou e encostou, “de leve”, com a cabeça no degrau. Mas, com o susto, CHOROU MUITO.
E fez com que outra lenda se criasse: a que tinha batido com a cabeça e se machucado muito.
Assim se constroem historias. Histórias de família, que se tornam lendas e que podem, depois, ser contadas...
mas nunca se sabe que lugar e significado vão ter no imaginário de cada um,
nem que desdobramentos podem ter tido...


Suely Laitano Nassif
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quinta-feira, 3 de junho de 2010

Um sapatinho para parar o trem

As lembranças de Mariana são precoces.
Ela se lembra desse dia, quando tinha um ano e meio, e foi conhecer a avó, que morava no Rio de janeiro.
Ela já andava e estava começando a falar.
Eram tempos das festas juninas. Foi quando ela aprendeu a falar: balão.
Lembra-se da festa que faziam toda vez que apontava para o céu, falando: balão!

Os pais iriam levá-la pela primeira vez... para a avó conhecer.
A expectativa era grande!

Ela podia sentir no ar a agitação de todos e os preparativos que antecederam o grande dia... A mãe fizera um vestido de tafetá azul, de babadinhos, para aquela ocasião. Comprara sapatinhos novos. Arrumara as malas. Tudo pronto... e, no dia marcado, foram para a Estação da Luz. Pegaram o trem para fazer a viagem.

O trem, uma “Maria fumaça”, era daqueles antigos, com caldeira e assentos de ripa de madeira polida. Entraram no trem. Não havia muita gente no vagão.

Os pais se acomodaram... sentaram-se para que a viagem tivesse início.
Ela pensava... quando será que toda aquela agitação iria parar?
Todos aqueles ruídos da estação... até que soa o apito. O trem se põe em movimento.

A janela aberta deixava o vento entrar, mas também as faíscas com um pouco de fumaça.
O pai pensou em fechar a janela...

Ela, no colo da mãe, inquieta com todo aquele movimento, começou a ficar muito incomodada com os postes que passavam correndo... sem parar pela janela.

O que podia fazer?
Mais rápida do que o pai... antes que ele fechasse a janela...
Pensou como resolver o problema.
Tirou o sapatinho do pé e atirou pela janela para fazer o trem parar.

A mãe ficou muito brava, por ter perdido o sapato.
Como iria ver a avó com um único pé de sapato?

Suely Laitano Nassif
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