"MARIANA nos convida para uma interessante jornada, emprestando-nos “seu olhar” para mostrar,
através da narrativa de seus pensamentos, sentimentos e emoções, tudo que existe além das “DIS-HABILIDADES”.
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segunda-feira, 29 de abril de 2013

Poeminha de mascar



Todas as crianças sabiam fazer bolas de chicletes, menos Catarina!
E não era por falta de tentativa, não...
Saber fazer bola era uma arte! E não engolir o chiclete era outra, principalmente porque as mães falavam cada coisa que qualquer criança ficada apavorada: Gruda na tripa!
As crianças nem imaginavam o que seria aquilo, mas devia ser algo muito grave.
Era assim como engolir sementes de laranja e imaginar-se com uma laranja nascendo pelo ouvido ou nariz.
Engolíamos chicletes e sementes...
Engolimos ainda! Chicletes, sementes e sapos.
Mas, a sabedoria de lidar com as perdas e fracassos era aprendida “em campo”, nas esquinas nebulosas da infância.
A imaginação era muita! Hoje é escassa.
Éramos criativos e talvez por isso a superação das  adversidades era apenas uma questão de tempo.
Hoje eu sei que resiliência e chiclete tem tudo a ver!



TUTI- HORT- FRUT

Nham-nham-nham…
Tssssssssssssssss
Ploft.

Nham-nham-nham…
Tssssssssssssssss
Ploft.

Nham-nham-nham…
Nham-nham-nham…
Nham-nham-nham…
Tsssssssssssssssssss


Cnsegui!!!


*Eu tinha por volta dos oito ou nove anos e não sabia fazer bola de chiclete.
Certo dia, resolvi aprender… Comprei dois deles, sentei num degrau da escada lá de casa e fiquei tentando, tentando, até CONSEGUIR.
Depois cresci e resolvi escrever este episódio em forma de poeminha, brincando com os sons das letras.

Escrito por Rita Nasser

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Marli, a primeira amiga



Era inicio de tarde de um dia ensolarado, no céu as nuvens começavam a se movimentar rapidamente ficando carregadas, ameaçando chuva.

Mesmo assim, Mariana que brincava no quintal resolveu explorar além da cerca que demarcava os canteiros de flores e hortaliças. Seguiu adiante no caminho de terra batido, rumo ao fundo do quintal, lugar menos utilizado por todos, onde havia árvores grandes e arbustos, alguns pés de laranja e de limão. Do lado esquerdo, mais perto do muro podia se ver uma pilha de tijolos e uma escada repousando ao lado que há muito ali estavam, com mato crescendo em volta.

Mariana resolveu investigar se podia encontrar algo pra brincar ali perto dos tijolos.
“Quem sabe?” - Pensou ela.

Assim que chegou perto do muro ficou surpresa.
Descobriu um buraco na parte de baixo do muro, atrás da pilha de tijolos e do mato.
Pensou que poderia ser por isso que os tijolos estavam naquele lugar.
Se aproximou devagar e olhou através do buraco. Que surpresa!!!

De lá podia se ver outro quintal... e mais distante um pouco a casa do vizinho.
Viu que lá moravam pessoas que ela podia observar dali daquele lugar.
Ficou muito agitada com a descoberta, mas resolveu voltar pra casa. Os pingos de chuva começavam a cair.

Voltou correndo.
Ficou lá bem quietinha pensando sobre o que tinha descoberto, ainda com o coração batendo forte. Logo, sua cabecinha se pôs a pensar no que tinha visto: um buraco no muro de onde podia ver o outro lado!!!

Os dias se passaram e o buraco tornou-se parte de sua rotina.
Sempre ia visitar aquela janela que se abria para o outro lado.
Logo descobriu que havia uma menina morando naquela casa.
Foi um susto!!!

Depois, aos poucos, se encheu de curiosidade e começou a ficar com vontade de entrar em contato. Esta poderia ser uma grande ideia!!!

Um dia a menina se aproximou, mas ela ficou com medo de chamar.
Outro dia a menina estava tão perto que as duas acabaram se olhando... Assustadas saíram correndo de perto do muro.

Penso que foi logo depois do Natal que Mariana teve outra ideia.
Ela tinha ganhado do Papai-Noel um conjunto de mesinha e cadeirinhas, um jogo de panelinhas de alumínio e um jogo de chá cor de rosa decorado com florezinhas.

Mariana levou seus brinquedos para perto do muro.

Montou a mesinha, sentou na cadeira e colocou as panelinhas e as xícaras sobre a mesa. Ficou esperando a menina aparecer.
Que surpresa!!!

A menina veio e se aproximou.

Mariana mostrou seus brinquedos para a menina do outro lado do muro e sentadinha ao lado da mesa ficaram ali conversando.
As duas ficaram amigas e por algum tempo elas puderam brincar assim através do muro. Mostrando as bonecas, tomando chá na xícara cor de rosa...

Os meses passaram e as aulas começaram.
Marli, sua amiga do muro, tinha que ir para escola.
Foi chorando muito que Mariana viu sua amiga ir para a escola, não querendo ir.
Suas tardes nunca mais foram as mesmas.
Mariana havia perdido sua amiguinha pra escola.

Mesmo assim marcou na memória: quando tivesse que ir pra escola não iria chorar.
Ela iria ficar muito contente.
Fez essa promessa pra ela mesma.

Foi assim que Mariana encontrou e ao mesmo tempo perdeu sua primeira amiga.
Mariana, logo se mudou para a casa nova, no Jardim, onde viveu sua infância onde podia brincar com as crianças na rua e no quintal.

Nunca esqueceu aquela sua primeira amiga!!!
Até hoje ela pensa encontrá-la. Aquela amiga de infância chamada Marli, que morava na rua Vergueiro, no bairro do Paraíso.


Escrito por Mariana (Suely Nassif)



Como é o seu nome? Você se chama Marli?
Quando você tinha 7 anos, você morou na rua vergueiro, perto da igreja Sta Generosa?
Estou à sua procura.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Morte e Vida


Meu coração está apertado! Não há meios de fazer Vovó despertar!
- “Vovó querida!” – sussurro, com um nó na garganta, enquanto acaricio seu rosto, seus cabelos, suas mãos… mas ela não reage; permanece em sono profundo, como a Bela Adormecida. Parece que não quer acordar nunca mais.
O médico diz que ela entrou em coma e logo vai nos deixar. Não quero acreditar no que ele diz! Não quero que Vovó vá embora!

Começo a me lembrar do dia em que Mamãe me contou que o avô da minha amiguinha tinha morrido. Eu devia ter uns 5 anos de idade e pela primeira vez ouvia falar em morte. Pelo tom de voz de Mamãe, percebi que devia ser alguma coisa muito grave… e triste também. Passei vários dias tentando entender o significado daquilo, mas parecia algo profundo demais para mim, fora do alcance da minha compreensão. Então resolvi falar com Vovó. Ela sempre esclarecia as minhas dúvidas.
- “Vovó!… O que é morrer?”
- “Morrer é dormir para sempre.” – ela respondeu sem pestanejar.
- “Para sempre?!” – perguntei, incrédula – “Como assim? Não acordar nem pra fazer xixi?… Nem pra comer?”

Vovó sorriu pacientemente e continuou com sua doçura habitual:
- “Minha Flor, quando a gente morre, o corpo para de funcionar, então não precisa mais comer, nem fazer xixi, nem nada.”
- “Então, é melhor levar a gente pro ferro velho, né?” – conclui séria, lembrando-me da batedeira que Mamãe tinha acabado de levar para o ferro velho, porque havia parado de funcionar e não tinha mais como ser consertada.

Vovó teve um acesso de riso e mudou de assunto. E assim, durante muito tempo fiquei sem saber o que era feito das pessoas que morriam. Será que existia algum depósito de gente morta? Ou será que elas desapareciam? E, se desapareciam, será que sumiam para sempre ou será que iam aparecer em outro lugar?

Agora vejo Vovó nesse estado e tenho vontade de lhe fazer um monte de perguntas… É verdade, Vovó, que quando a gente está em coma, não escuta nada, não sente nada, não percebe nada do que está acontecendo à nossa volta? É verdade que você não sabe que estou aqui? Que não está sentindo o meu carinho por você e a vontade que tenho que você acorde e volte a ser aquela Vovó viva e amorosa de sempre?


Mas Vovó não responde. As lágrimas jorram dos meus olhos, enquanto deito meu rosto delicadamente sobre seu peito, para ficar ouvindo as batidas suaves do seu coração e ter a certeza de que ela ainda está ali comigo.

Então, ouço! Sim, ouço as batidas, mas ouço também a voz da Vovó! Ela não está mexendo os lábios, mas está falando comigo! Parece que a voz sai do seu coração!
- “Minha Flor…” – diz ela carinhosamente – “Não se entristeça. Vovó está muito bem! Estou indo para um lugar tão lindo! Você nem pode imaginar! Na verdade, pode sim, pois já esteve lá muitas vezes em sonho. Lá não existe dor, não existe doença, nem velhice, nem tristeza, nem maldade… só amor, alegria e beleza!”
- “Mas, Vovó, você vai ficar sozinha, longe da gente!” – falo baixinho, sentindo antecipadamente as saudades que ela vai deixar em mim.
- “Pois não estou dizendo que você já esteve lá em sonhos? Eu também já estive e todo mundo pode ir para lá enquanto está dormindo. Então, vamos nos encontrar sempre que quisermos!”
- “Será possível?!” – penso, com uma pontinha de esperança, mas não digo nada.

Vovó continua:
- “As pessoas que se amam de verdade nunca se separam. O amor une-as por toda a eternidade. Mesmo que você não esteja me vendo e eu não a esteja vendo, o amor que existe entre nós permite que haja uma comunicação. Na verdade, o amor é a própria comunicação…” – Ela faz uma pausa, como para me deixar assimilar o que acabo de ouvir, e então prossegue:
- “Veja agora, por exemplo, como você acha que estamos nos comunicando, se meu corpo já não está funcionando mais?”

Levanto ligeiramente a cabeça e olho para o rosto dela. Continua totalmente inerte. Mas percebo que está muito mais pálido do que antes. Volto a colocar meu rosto sobre seu peito e não ouço mais as batidas do seu coração.
Ela se foi! Mas, para minha surpresa, a vontade de chorar passou. No seu lugar, sinto uma enorme paz e um amor imenso!

Continuo debruçada sobre o peito da Vovó e ainda ouço a voz do seu coração que me diz:
- “Já não estou mais neste corpo, Minha Flor. Na verdade, nunca fui este corpo, assim como você não é o seu. Por isso podemos nos encontrar independentemente deles.”
Então parece que a ouço dar uma das suas risadinhas marotas, enquanto diz:
- “Mas se resolver levar este corpo para o ferro velho, faça isso com muito respeito e gratidão, ouviu?!”

E voltando ao tom um pouco mais sério, ela prossegue:
- “Se não fosse ele, como eu poderia tê-la carregado no colo quando você era bebê? Como poderíamos ter nos abraçado tantas vezes? Como poderíamos ter dado tantas risadas juntas? O tempo dele se esgotou, mas ele foi de grande utilidade, não é? Agora estou começando uma vida nova num belo corpo de luz, um corpo tão lindo que eu mesma estou me achando maravilhosa! Vamos celebrar?”
- “Vamos, Vovó!” – respondo feliz, na certeza de que a Vovó não foi embora para sempre, mas apenas ficou invisível aos meus olhos… mas totalmente visível para o meu coração.


Escrito por Vera Corrêa ©

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Humor refinado pensa o princípio da vida


Resenha sobre o livro: "Antes do Depois" - Bartolomeu Campos de Queirós - Editora Manati
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"Antes do Depois" é uma prosa poética plena de humor, elaborada como um fluxo de consciência. O texto é um exercício do livre pensar e de suas ricas possibilidades. O livro é uma divertida e generosa brincadeira, cujo ponto de partida é uma questão inusitada: "Como terá sido o embrião do narrador dos mistérios do mundo?"


Para responder esta questão o leitor é convidado a ser a testemunha ocular do nascimento de uma criança, acompanhando sua luta pela sobrevivência até o momento de seu batizado. Neste curto percurso de vida são feitas digressões sobre o fôlego de viver, a memória que se carrega, o silêncio cheio de amores escondidos, o Sal e o Açúcar na vida, o coração que é fechado feito um cofre. O texto termina seguindo o fluxo da vida, que sempre se reinicia.

O texto relaciona os aspectos concretos de um observador do cotidiano com o poder de abstração das palavras. O resultado é um exercício de liberdade. A narrativa é circular e termina assim: "Quando olho para o papel (a certidão de nascimento), amarelado pelo tempo, eu cismo em nascer de novo. Então brinco de faz-de-conta e escrevo."

Bartolomeu Campos de Queirós é autor de diversas obras de prosa poética e de literatura juvenil e recebeu diversos prêmios, entre eles o prêmio Jabuti e o prêmio Nestlé de Literatura.


Por Ana Lúcia Brandão

Fonte: Antes do depois
UOL Educação - Resenhas - 
31/10/2007
http://educacao.uol.com.br/resenhas/ult4283u58.jhtm

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Dias Chuvosos

Dias chuvosos e férias sempre foram duas coisas difíceis de administrar pelas mães. E não foi diferente para minha mãe. São Paulo era uma cidade onde garoava muito, daí o apelido que acabou ganhando. Aquela chuvinha fina, que não tinha fim, deixava molhados todos os sapatos, as roupas não secavam no varal, o céu era cinza, dias e dias como se estivéssemos em Londres. Passeios eram adiados, brincadeiras canceladas, visitas desmarcadas. 

As crianças irrequietas, desassossegadas, presas dentro de casa, compulsoriamente, com tanta energia contida e sem ocupação, tudo isso transformava as férias de verão, sem viagens, numa tormenta tanto para as mães, quanto para os filhos. 

Criamos em casa algumas brincadeiras feitas na sala, como brincar com o jogo de xadrez do meu pai, sem que ele soubesse, acobertados pela mamãe. Meu pai havia dado ao meu irmão a sua coleção de bolinhas de gude, umas duzentas, que aproveitávamos de várias maneiras. A preferida era subir até o topo da escada, que ligava aos quartos, na parte superior da casa, e de lá lançar as bolinhas, numa linda cascata colorida, barulhenta, maravilhosa, que se esparramava pelo chão da sala. Era catar tudo e começar de novo. Não preciso contar que a coleção durou pouco; a cada corredeira de bolinhas de gude pela escada, várias se quebravam, deixando cristaizinhos coloridos e delicados pelo caminho. 

Jogávamos pega-varetas, oportunidade que meu irmão usava para roubar um pouco, sempre dizendo que as varetas não haviam se mexido. Engraxávamos todos os sapatos do papai, para tentar ganhar alguns trocados. Pulávamos pela casa, correndo como loucos, inclusive sobre os sofás da sala. Foi numa dessas brincadeiras que meu irmão caiu sobre uma mesinha da sala com tampo de vidro e cortou o pulso, indo parar no pronto socorro e levando quatro pontos. Minha mãe contava histórias sobre as poucas viagens que havíamos feito quando éramos bem pequenos, e nós adorávamos ouvir as mesmas histórias repetidas vezes. Ela arrebentava pipocas, que comíamos alegres, acompanhadas de groselha. Refrigerante era coisa só para festas. Outro passatempo meu era desfilar pela casa com roupas e sapatos de minha mãe. Não sei como não me arrebentava, pois descia as escadas com saltos altos, num sapato pelo menos um cinco números maiores que o meu na época, e roupas que se arrestavam pelo chão. 

Mas nosso passatempo preferido dentro de casa era a montagem de cabanas na sala de jantar. Mamãe emprestava vários cobertores e colchas, alguns travesseiros, e assim nascia uma cabana, usando a mesa e as cadeiras da sala de jantar como suporte. Lá dentro passávamos o maior calor, coisa a que criança parece não ligar, e ficávamos deitas de costas conversando e vendo as figuras do Mundo da Criança, coleção que existe até hoje: levávamos para lá nossos brinquedos; eu, minha boneca Exegese, meu irmão, seu urso amarelo. Caixas com bugigangas, joguinhos, mais panos. Assim passávamos horas entretendo-nos com pouca coisa, mas a sala transformada numa bagunça incrível. Gostoso é lembrar que minha mãe tinha muita paciência com a nossa desordem, e ao contrário de brigar nos ajudava a deixar a cabana mais confortável. E depois, pacientemente, guardava tudo sozinha, sem reclamar. 

A cabana trazia um sentimento de aconchego e paz, de tranquilidade e retiro para um mundinho que era só nosso. Os adultos não caberiam dentro delas? Guardo até hoje aquela sensação, de estar ali só com meu irmão, numa comunhão de risadinhas, rodeados por cobertores coloridos, que filtravam a luz, dando ao ambiente uma aura de magia e encantamento. Lembro-me, até hoje, que um dos cobertores era amarelo e um outro, xadrez de branco e marrom. Era simplesmente uma delícia. 

Tenho pena das crianças que foram proibidas de brincar à vontade dentro das suas próprias casas, ou por falta de espaço ou por excesso de cuidados com os móveis ou objetos de decoração. A nossa casa sempre foi cheia de liberdade e calor humano, de bem estar e paz. Uma casa que fazia com que gostássemos de lá estar; apreciávamos tudo e não chegávamos a nos entediar nunca. O ambiente sempre foi alegre e feliz. Graças aos pais maravilhosos, que nos educaram com rigor, mas com o sentimento de que em casa éramos amados, livres e satisfeitos. 

Escrito por Eloísa Falcomer